VÓ É MÃE COM AÇÚCAR

Já ouviram essa frase? Cresci ouvindo minha mãe dizer ela. Acho que para justificar todo mimo, tolerância com as travessuras e falta de comprometimento em “disciplinar” netos que os avós tem, porque essa tarefa é dos pais, ainda segundo minha mãe. Os avós aproveitam que essa árdua tarefa não é mais deles, já que tiveram o trabalho com os filhos, e curtem os netos com mais leveza e menos preocupação, e experimentam uma forma diferente do amor que dedicaram aos filhos. E todo mundo ganha com essa relação, avós, netos e pais.

O papel dos avós tem grande relevância na vida das crianças, eles são uma referência, representam a base familiar e são uma fonte inesgotável das histórias mais engraçadas e de relatos familiares que despertam o sentimento de pertencimento e fazem a gente entender quais são as nossas raízes, fortalecendo conceitos que serão primordiais na nossa vida adulta.

Escrevo inspirada na saudade de minha avó materna, dona Maria, que veio do Ceará viver a vida nas terras de Galvez, com meu avô, também Cearense. Exemplo de mulher, de esposa, de mãe, de avó, sem qualquer exagero. Ficou viúva ainda jovem, mas decidiu honrar a memória e os momentos vividos com meu avô e nunca mais casou, criando todos os filhos sozinha.  Em minha família não há quem não se orgulhe de ter tido tão honrosa mulher como matriarca.

Vovó esteve conosco até os 98 anos. Sim, ainda nos deixou essa esperança, de termos herdado, além de todo seu caráter, bondade, beleza e força, também toda sua vitalidade. Nunca ouvi Vovó se queixando da vida, reclamando, lamentando os dias. Ela fazia exatamente o contrário, estava sempre grata e só pedia saúde para viver muitos anos mais. Já próximo dos 98 anos a idade começou a fazer peso e, apesar de saudável, o corpo não obedecia mais a todos os comandos do cérebro, mesmo assim ela teimava contra ele.

Minha avó achava que nós cuidávamos dela, quanto engano! Ela que sem perceber e achando que não podia, devido a sua idade, cuidava muito mais de nós. Nos salvava da nossa rotina, coloria nossos dias cinzentos, alegrava a nossa casa, era nosso elo forte. Todos corríamos com os nossos afazeres diários só para podermos chegar em casa o mais breve, para então termos um tempo com ela.

Meu irmão sempre me ligava quando eu demorava a chegar em casa, já contando alguma “pérola” da Vovó. Uma dentre as mais engraçadas, é que por conta da idade sua mente passeava entre o passado e o presente, e ela vez ou outra lembrava de uma genro que ela havia gostado muito, mas que já havia morrido, que chamavam de Bené. Certa vez estávamos todos a mesa, esperando que o jantar ficasse pronto e ela perguntou à minha mãe: “O Bené vem jantar aqui também?” Imediatamente minha mãe, assustada com a pergunta, já que se tratava de alguém falecido há muitos anos, tratou de explicar e já “repreender” o possível espírito visitante, enquanto eu e meus irmãos mal podíamos respirar, caídos no chão, de tanto rir.

Ela agarrava forte a minha mão, igual na foto, sempre que eu pegava na sua para pedir a benção. Eu adorava brincar com as ruguinhas do cotovelo dela, ela nos dava dinheiro escondido, que tirava diretamente do seu soutien e eu nunca entendi porque ela escondia dinheiro ali. Ela sempre dizia que não tinha dormido nada, e eu falava: “Mas Vovó eu ouvi a senhora roncando”, então ela dizia que eu estava mentindo e fechava a cara. hahaha

São muitas lembranças, alegres, carinhosas e fartas de saudade. Entendi que não há perdemos e que ela era um ser humano tão espetacular que só pode estar num lugarzinho privilegiado no céu, então a dor sumiu. Percebi que nossa distância é apenas física, os laços que criamos estão acima das coisas desse mundo, foram selados com amor e amor é para sempre, não se perde nunca.

E se pudesse dar um conselho aos que ainda tem avós nesse plano é: aproveitem seus velhinhos o máximo que puderem, criem muitas memórias e tenham muitos momentos com eles, isso vai fazer muita diferença quando eles partirem para perto de Deus.

O AMIGO DE DEUS

Acho fantástico observar como as pessoas falam de Deus, porque a maneira como as pessoas enxergam Ele é personalíssima, é algo construído a partir de suas próprias experiências e conhecimentos, e assim torna-se uma relação tão íntima que você se sente livre para descrever Deus com riqueza de detalhes, afinal, você o conhece bem, não é mesmo? Para uns é um amigo leal e onisciente, para outros mais parecido com a figura de um pai amoroso e compreensivo, há os que o sentem como uma energia poderosa capaz de controlar tudo.

E sobre os encontros? Outras muitas formas. Há aqueles que conversam com Ele todas noites, antes de dormir. Há os que o encontram sempre que vão a igreja, há os que sentem sua presença em contato com a natureza, mirando toda beleza que acreditam ter sido criada por Ele. Há, ainda, os que o encontraram num momento de dor e sentiram o conforto de um Ser que só pode mesmo ser maior que tudo, porque de outro jeito não suportariam a situação.

Mas o que mais me fascina de tudo isso é que, embora o jeito particular de cada encontro com Deus, há sempre algo em comum nos relatos: todos acabam falando de amor, proteção e caridade.

Algumas semanas atrás estava com um amigo e um amigo dele começou a falar de Deus de uma maneira muito particular. É verdade que pouco se assemelhava com a maneira como eu enxergo, sinto e encontro Deus, mas vi tanta intimidade no relato que ele fazia que não tive como duvidar que a amizade dele com Deus era real, já que era assim que ele o descrevia, como um amigo.

Há tanta beleza nessas histórias com Deus, sempre que escuto alguma fico ainda mais encantada com Ele, porque percebo que as pessoas não estão apenas buscando a salvação através de uma religião, elas estão buscando uma relação com Deus, uma elevação espiritual, um melhoramento pessoal. Por isso não entendo como algumas pessoas podem ser tão intolerantes com a maneira como o outro pratica e comunga a sua própria fé, e como podem tentar “colonizar” a maneira do outro ver Deus, se Ele próprio não o fez. Não deixou receita ou estabeleceu padrões para encontrá-lo, porque é da natureza de Deus ser acolhedor, receptivo e amável com todos que o procuram. A única condição é que sejamos sinceros.

“O Senhor está perto de todos os que o invocam, de todos os que o invocam com sinceridade”. (Salmos 145:18)

Se abandonássemos essa mania vaidosa de achar que sabemos de tudo, querendo sempre ter razão e fazer prevalecer a nossa verdade, em detrimento da verdade dos outros, o mundo seria um lugar mais agradável para vivermos, afinal, só o que importa é a prática do bem e da caridade desinteressada, e o quanto podemos ser tolerantes com as imperfeições alheias, perdoando, nos ajudando, e reconhecendo que somos também cheios de falhas. Só assim nos tornaremos pessoas melhores, reforçando a nossa fé e ascendendo nossa espiritualidade, que é mais importante do que a simples religiosidade.

POESIA

“De amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando. (…) Meu partido está tomado. Ele não obedece a cálculos da conveniência momentânea, não admite cassações nem acomodações para evitá-las, e principalmente não é um partido, mas o desejo, a vontade de compreender pelo amor, e de amar pela compreensão.”
[Carlos Drummond de Andrade]

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A HISTÓRIA DA FOTO

Foto fantástica. Muita sensibilidade artística do fotógrafo. Centenas de interpretações.

Acho fascinante esse poder da fotografia de paralisar o tempo, guardar o presente, reviver o passado, enfeitar, despertar a sensibilidade das pessoas e motivá-las a pensar.

Vi tanta gente comentando sobre a condição do garoto, sobre desigualdade social, sobre preconceito. Tantos relatos reflexivos e compadecidos com o suposto contraste do garoto negro, pobre e sozinho, com a multidão rica e branca. Me perguntei por que a leitura da foto tinha que ser essa. Por que o garoto é negro, necessariamente, ele tem que ser pobre e estar em condição de abandono? Se fosse um garoto branco, na mesma situação, pensariam a mesma coisa?

Acho que a interpretação da foto, feita pela maioria, só reforça alguns estereótipos, porque muitos estão pré-condicionados a enxergarem uma pessoa negra como pobre e em situação de abandono. A gente precisa se livrar desses estereótipos, aliás, de todo tipo de estereótipo. A gente precisa também abandonar essa gana pelo sensacionalismo, de tentar produzir histórias só com a intenção de chocar a opinião pública, sem qualquer comprometimento com a verdade, ou porque nos faz parecer pessoas de boa índole que se preocupam com o próximo, quando, na verdade, se encontrássemos um garoto parecido com o da foto na rua, não dariamos a mínima atenção.

Por que ao invés de fantasiar sobre a suposta situação de pobreza, tristeza e abandono, as pessoas não se deliciaram com uma bela fotografia que mostra a inocência de uma criança, que decidiu entrar no mar e apreciar maravilhada os fogos de artifício? Foi isso que vi. E estava me segurando para escrever, porque esperava enxergar o que a maioria viu, mas não consegui. Também esperava a verdadeira história aparecer. Mas só consegui mesmo ver uma criança tão íntima do mar e daquele lugar, que se sentiu segura para entrar na água e ter o seu momento particular com os fogos, e apreciou encantada.

Por que essa mania de olhar tudo sempre pelo lado triste, penoso, cruel? Me recuso. A vida real já tem muitas misérias, e dessas não podemos fugir, temos que assistir acontecer, muitas vezes, impotentes. Então deixemos que aquilo que não tem definição seja visto pelo lado mais belo. E, mais importante, passemos a enxergar o outro como semelhante, de fato. Vamos olhar para o outro e enxergar apenas outra pessoa, não a sua cor ou a sua condição econômica.

 

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SOBRE VIVER

A gente precisa parar de pensar que a felicidade está vestida de momentos épicos, porque ela se disfarça de momentos simples para nos testar e então mudar a aparência de nossas vidas para sempre. Viver ultrapassa qualquer entendimento, mas duas coisas não podemos passar sem perceber: O quão sem importância é essa garantia de acreditar que sabemos de tudo, e o poder incrível que qualquer gesto de carinho tem de curar a nossa loucura. 

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