O AMIGO DE DEUS

Acho fantástico observar como as pessoas falam de Deus, porque a maneira como as pessoas enxergam Ele é personalíssima, é algo construído a partir de suas próprias experiências e conhecimentos, e assim torna-se uma relação tão íntima que você se sente livre para descrever Deus com riqueza de detalhes, afinal, você o conhece bem, não é mesmo? Para uns é um amigo leal e onisciente, para outros mais parecido com a figura de um pai amoroso e compreensivo, há os que o sentem como uma energia poderosa capaz de controlar tudo.

E sobre os encontros? Outras muitas formas. Há aqueles que conversam com Ele todas noites, antes de dormir. Há os que o encontram sempre que vão a igreja, há os que sentem sua presença em contato com a natureza, mirando toda beleza que acreditam ter sido criada por Ele. Há, ainda, os que o encontraram num momento de dor e sentiram o conforto de um Ser que só pode mesmo ser maior que tudo, porque de outro jeito não suportariam a situação.

Mas o que mais me fascina de tudo isso é que, embora o jeito particular de cada encontro com Deus, há sempre algo em comum nos relatos: todos acabam falando de amor, proteção e caridade.

Algumas semanas atrás estava com um amigo e um amigo dele começou a falar de Deus de uma maneira muito particular. É verdade que pouco se assemelhava com a maneira como eu enxergo, sinto e encontro Deus, mas vi tanta intimidade no relato que ele fazia que não tive como duvidar que a amizade dele com Deus era real, já que era assim que ele o descrevia, como um amigo.

Há tanta beleza nessas histórias com Deus, sempre que escuto alguma fico ainda mais encantada com Ele, porque percebo que as pessoas não estão apenas buscando a salvação através de uma religião, elas estão buscando uma relação com Deus, uma elevação espiritual, um melhoramento pessoal. Por isso não entendo como algumas pessoas podem ser tão intolerantes com a maneira como o outro pratica e comunga a sua própria fé, e como podem tentar “colonizar” a maneira do outro ver Deus, se Ele próprio não o fez. Não deixou receita ou estabeleceu padrões para encontrá-lo, porque é da natureza de Deus ser acolhedor, receptivo e amável com todos que o procuram. A única condição é que sejamos sinceros.

“O Senhor está perto de todos os que o invocam, de todos os que o invocam com sinceridade”. (Salmos 145:18)

Se abandonássemos essa mania vaidosa de achar que sabemos de tudo, querendo sempre ter razão e fazer prevalecer a nossa verdade, em detrimento da verdade dos outros, o mundo seria um lugar mais agradável para vivermos, afinal, só o que importa é a prática do bem e da caridade desinteressada, e o quanto podemos ser tolerantes com as imperfeições alheias, perdoando, nos ajudando, e reconhecendo que somos também cheios de falhas. Só assim nos tornaremos pessoas melhores, reforçando a nossa fé e ascendendo nossa espiritualidade, que é mais importante do que a simples religiosidade.

POESIA

“De amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando. (…) Meu partido está tomado. Ele não obedece a cálculos da conveniência momentânea, não admite cassações nem acomodações para evitá-las, e principalmente não é um partido, mas o desejo, a vontade de compreender pelo amor, e de amar pela compreensão.”
[Carlos Drummond de Andrade]

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A HISTÓRIA DA FOTO

Foto fantástica. Muita sensibilidade artística do fotógrafo. Centenas de interpretações.

Acho fascinante esse poder da fotografia de paralisar o tempo, guardar o presente, reviver o passado, enfeitar, despertar a sensibilidade das pessoas e motivá-las a pensar.

Vi tanta gente comentando sobre a condição do garoto, sobre desigualdade social, sobre preconceito. Tantos relatos reflexivos e compadecidos com o suposto contraste do garoto negro, pobre e sozinho, com a multidão rica e branca. Me perguntei por que a leitura da foto tinha que ser essa. Por que o garoto é negro, necessariamente, ele tem que ser pobre e estar em condição de abandono? Se fosse um garoto branco, na mesma situação, pensariam a mesma coisa?

Acho que a interpretação da foto, feita pela maioria, só reforça alguns estereótipos, porque muitos estão pré-condicionados a enxergarem uma pessoa negra como pobre e em situação de abandono. A gente precisa se livrar desses estereótipos, aliás, de todo tipo de estereótipo. A gente precisa também abandonar essa gana pelo sensacionalismo, de tentar produzir histórias só com a intenção de chocar a opinião pública, sem qualquer comprometimento com a verdade, ou porque nos faz parecer pessoas de boa índole que se preocupam com o próximo, quando, na verdade, se encontrássemos um garoto parecido com o da foto na rua, não dariamos a mínima atenção.

Por que ao invés de fantasiar sobre a suposta situação de pobreza, tristeza e abandono, as pessoas não se deliciaram com uma bela fotografia que mostra a inocência de uma criança, que decidiu entrar no mar e apreciar maravilhada os fogos de artifício? Foi isso que vi. E estava me segurando para escrever, porque esperava enxergar o que a maioria viu, mas não consegui. Também esperava a verdadeira história aparecer. Mas só consegui mesmo ver uma criança tão íntima do mar e daquele lugar, que se sentiu segura para entrar na água e ter o seu momento particular com os fogos, e apreciou encantada.

Por que essa mania de olhar tudo sempre pelo lado triste, penoso, cruel? Me recuso. A vida real já tem muitas misérias, e dessas não podemos fugir, temos que assistir acontecer, muitas vezes, impotentes. Então deixemos que aquilo que não tem definição seja visto pelo lado mais belo. E, mais importante, passemos a enxergar o outro como semelhante, de fato. Vamos olhar para o outro e enxergar apenas outra pessoa, não a sua cor ou a sua condição econômica.

 

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SOBRE VIVER

A gente precisa parar de pensar que a felicidade está vestida de momentos épicos, porque ela se disfarça de momentos simples para nos testar e então mudar a aparência de nossas vidas para sempre. Viver ultrapassa qualquer entendimento, mas duas coisas não podemos passar sem perceber: O quão sem importância é essa garantia de acreditar que sabemos de tudo, e o poder incrível que qualquer gesto de carinho tem de curar a nossa loucura. 

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EXTRAORDINÁRIO

Assisti ao filme Extraordinário, com Julia Roberts. Filme delicado, inspirador, com uma mensagem fantástica. Fiquei emocionada com tanta delicadeza e significados num filme só.

Com a história do garotinho que sofre todo tipo de discriminação por ser esteticamente diferente da maioria, lembrei de algumas histórias de gente conhecida. Da menina que as colegas de escola a ameaçavam porque ela era a que tirava as melhores notas da sala e gostava de estudar, da outra que os colegas a humilhavam porque ela tinha a língua presa, do menino que por ser tímido, estava sempre calado e era taxado de esquisito.

Há tantas histórias, aposto que você também consegue lembrar de algumas. Ou quem sabe até lembrou de sua própria história do passado, por ter sido o próprio alvo de humilhação e zoação na época de escola, e hoje carrega suas cicatrizes, mas não permitiu que isso afetasse negativamente sua personalidade, ao contrário, usou o fato para crescer e se tornar alguém melhor, diferente dos que te humilhavam. Ou você foi tão cruelmente ferido que se tornou incapaz de ter fé nas pessoas, de amar e, pior de tudo, de se permitir ser amado, porque se fechou para o mundo e não acredita em ninguém. Tem coisa pior que isso?

As pessoas podem ser extremamente cruéis. Destruir as melhores coisas que outras pessoas carregam, se aproveitarem da bondade delas, da sua inteligência, da sua gentileza, da sua inocência. Há muitas pessoas assim, vazias, egoístas, preconceituosas, superficiais… Elas são muitas, mas, graças a Deus, não são a maioria. Ainda assim, não temos como evitar contato com todas, infelizmente. Então o melhor jeito para lidar com esse tipo de gente é tirando o poder delas, o poder que elas tem de afetar a sua visão sobre si mesmo, de fazer você acreditar que o julgamento delas é verdadeiro, que tem alguma importância na sua vida, porque não tem.

Só o que importa é o seu julgamento sobre você mesmo, é a opinião das pessoas que te conhecem além das aparências. Só o que importa é o quanto a sua consciência repousa tranquila sobre o seu travesseiro. Não permita que terceiros roubem a sua paz, a sua auto estima. Não deixem que eles digam quem você é, ou o que você deve fazer para se “encaixar”. Estabeleça seus próprios padrões, foque nas suas próprias metas e não olhe para o lado. A maioria só quer que você desista, porque eles nunca serão capazes de te acompanhar, outros tantos queriam ser você, ter a sua inteligência, a sua coragem, a sua alegria, a sua personalidade. Os que querem te ferir estão vazios, e eles se alimentam tentando roubar as coisas boas e do bem que você se esforça para guardar e espalhar. Não permita!

A gente precisa se conhecer, ter certeza sobre quem somos ajuda muito a não nos deixar afetar pelos olhares e julgamentos alheios. Estar próximo de gente que nos quer bem, verdadeira e desinteressadamente, faz toda diferença também. Afinal, são essas pessoas que irão nos segurar quando o barco balançar e a gente pensar em sucumbir. São elas que nos levantam, que nos puxam para luz, que nos incentivam a ser a melhor versão de nós mesmos.

Gente cruel com o outro já vive o seu próprio inferno, porque é impossível fazer mal para o outro sem fazer mal para si mesmo. São pessoas carentes de tudo, sobretudo de amor. Pode parecer piegas, mas se sentir amado e saber amar, é das maiores bênçãos dessa vida, e por ser raro nem todo mundo vai viver a experiência. Alguns vão passar a vida inteira sem conhecer, porque não enxergam a vida como um presente, não assumem a responsabilidade pela sua felicidade, não tem coragem de mudar, não se importam com o sentimento alheio. Esperam que tudo caia do céu, vivem os dias contando as horas para o fim, só para não terem que sair da inércia, só para não terem que admitir os erros e corrigi-los. Acham que as outras pessoas só existem para servi-los.

Olhar para as pessoas com empatia, ser gentil com todos, ser capaz de ser indulgente com quem parece não merecer é uma grande demonstração de força. E como diz no livro: “A grandeza não está em ser forte, mas no uso correto da força. Grande é aquele cuja força conquista mais corações pela atração do próprio coração.”

Estamos vivendo tempos sombrios, onde o que tem prevalecido é o egoísmo. A maioria das pessoas só está focada nos seus próprios interesses, e gentileza e educação viraram artigos de decoração. Mas aquele que entende a importância da gentileza no cotidiano sabe que ser suave com o outro é um afago para si mesmo, sabe que somos interligados por algo maior que nossos próprios interesses e sentimentos, e que as relações humanas trazem significado a vida, porque nenhum homem é um ilha.

Por isso, embora as pessoas gentis tenham se tornado espécimes raros, quando vistos, hoje em dia, são facilmente reconhecidos. São aqueles que nos olham verdadeiramente nos olhos. Que, quando íntimos, nos dão abraços apertados e que são terapêuticos. Que cumprem suas promessas. Que não pensam antes de se levantarem e oferecerem o seu lugar no banco. Que se preocupam se o outro chegou bem em casa, se fez boa prova, se teve um dia bom no trabalho. Que se interessam pela sua história e ouvem atentamente. Que tem sempre um conselho sábio que traz luz para aquele seu problema que você achava sem solução.

O ser gentil possui naturalmente empatia, valoriza o outro como ser humano, enxerga além das aparências. Sabe que respeito é carinho, que delicadeza é cuidado e que toda gentileza, no fundo, é uma declaração de amor.

“Vamos criar uma nova regra de vida: sempre tentar ser um pouco mais gentil que o necessário? E quando tiver que escolher entre estar certo e ser gentil, escolher ser gentil?”